O QUE QUE FOI?
Novela Infanto-Juvenil de Conrad Rose
Cópia para divulgação
contato: conradrose@hotmail.com
© 2006 todos os direitos reservados
ORELHA
A observação aguçada do mundo e a exploração dos sentidos através dos olhos de um moleque encantado e instigado ao desafio pela beleza de uma colega de escola. O personagem-narrador se encoraja, divaga e planeja maneiras de conquistar a admiração da garota. Trabalho de Hércules impulsionado por um sentimento repleto de candura.
Um amor que brota, como sempre ocorre, sem muito a explicar.
Escrever para crianças, ou melhor, a partir delas, mais que gratificante e revelador, é o maior exercício literário que já encontrei. E descarrega sobre o autor as mais verdadeiras críticas cabíveis.
Apresento agora, minha primeira novela infanto-juvenil, dentre tantas que me instigarão.
Para que as crianças não deixem morrer o doce em suas vidas. E para que os adultos morram de saudades. Afinal, quem esquece cheiro de calçada umedecida?
Obrigado Mãe Rosa pelo eterno cordão. Bernardo pelos olhos fundos. E Xanda pela valentia.
Conrad Rose
15 de novembro de 2006.
I
Era só eu olhar para ela e Tatiana vinha com essa pergunta. Eu encabulava e abaixava os olhos. Foi assim desde o começo. Durante as aulas, na merenda, na fila e nas festividades.
Ela veio de outra escola. Toda faceira e cheirosa, Tatiana entrou em minha sala de nariz erguido, chacoalhando os cabelos castanhos da mesma cor dos olhos gigantes e curiosos. Lembro também dos brincos de coração e das meias listradas de rosa e azul que saíam dos seus sapatos de boneca. Eu, que não sou bobo nem nada, vi que surgia ali uma forte candidata a rainha da primavera. Ou melhor, queria Tatiana como primeira-dama quando eu fosse presidente.
Mas já no primeiro dia, na primeira olhada, ela sentou do meu lado, virou e disse:
- O que que foi?
- Nada. - respondi assustado.
Assim o ano foi passando, sem que eu pudesse me aproximar de maneira alguma. Quando chegaram as provas finais, eu estava com problemas na Matemática, porém no resto das matérias eu me dava muito bem. E foi na aula de História que eu encontrei uma oportunidade de ajudar aquela encantadora menina. Ela precisava de um sete para passar e a professora podia perguntar qualquer coisa estudada durante o ano todo no teste do dia seguinte.
Tomei coragem e me ofereci:
- Se quiser, eu posso ajudar você em História. Já estou aprovado faz um tempão.
Tatiana me olhou de um jeito diferente, pensou, olhou mais um pouco e finalmente falou:
- Então tá! Amanhã de manhã na biblioteca.
Oito horas eu já estava lá. De banho tomado, rosto lavado, cabelos penteados e dentes escovados. Mamãe até se surpreendeu porque não precisou pedir para eu fazer nada disso.
Esperei, esperei e quase dez horas ela apareceu:
- Oi. Será que ainda dá tempo?
- Claro. - respondi com segurança.
Daí expliquei a ela sobre os assírios, os fenícios, os gregos e os romanos. Também sobre as conquistas marítimas e a Revolução Francesa. Ela prestou a maior atenção em mim e aqueles olhos enormes fizeram com que eu me apaixonasse completamente.
Tatiana levou nota oito e foi aprovada. Já eu, que precisava de apenas um quatro em Matemática, quase rodei porque não consegui estudar direito de tanto pensar nela.
No ano seguinte ficamos em turmas diferentes. E na primeira chance que tive de me aproximar, ela veio com essa:
- O que que foi?
Não agüentei.
- Foi que você é a menina mais linda que eu já vi.
Tatiana corou e fugiu.
Depois desse dia, ela passou a me evitar pelo pátio. Mas tudo bem. Se eu posso esperar para ser presidente, por que não poderia esperar até as provas finais?
II
O ano passou com Tatiana me desprezando. Eu fiquei esperando um vacilo seu em História e me dediquei ao máximo para convencer na Matemática. Assim eu só me preocuparia com o exame dela.
Mas não deu. Eu havia despertado tanto o interesse dela pela matéria que Tatiana foi aprovada com oito e mérito. Aliás, esta foi a menor média dela.
Concluí que chegar à presidência seria muito mais fácildo que conquistar o coração da menina dos caracóis castanhos. Eu precisava de um novo plano e faltava apenas uma semana para as férias.
No último dia de aula, eu tinha combinado com meus amigos de assinar a camiseta para guardar de lembrança. E isso me deu uma grande idéia. Foi uma tarde de brincadeiras e gritaria. Quando o sino tocou, anunciando que estávamos livres para aproveitar o verão, eu corri até o portão do colégio para aguardar Tatiana.
O pátio foi esvaziando e nada dela. Eu já estava quase desistindo quando vi de longe os cabelos da minha primeira-dama chacoalhando. Abri um sorriso do tamanho da Lua, fui ao seu encontro e falei:
- Oi, Tatiana.
- O que que foi? - veio ela com a mesma questão.
- Você pode assinar minha camiseta? - perguntei envergonhado.
- Xi! Só tem espaço nas costas.
- Assina aí mesmo. - e me virei.
- Tá bom.
Ela escreveu e eu gritei para agradecer porque ela me entregou a caneta e saiu feito foguete.
Cheguei em casa na maior curiosidade. O que será que ela tinha escrito? Tirei o uniforme e tive uma grande surpresa. Ela escreveu seu nome e embaixo havia um número de telefone. Dei um pulo de alegria e um soco no ar, como se meu time tivesse marcado um gol.
Certa manhã, Dinda me convidou para ir ao cinema e disse que eu poderia levar um colega. Ponto para os meninos, eu pensei. Criei coragem e liguei. Uma senhora atendeu:
- Alô.
- Alô. É da casa de Tatiana? - perguntei.
- Não, meu filho. Aqui não mora nenhuma Tatiana.
Pedi desculpas pelo engano e desliguei. Depois falei para Dinda que eu não queria ir.
Passei os dias seguintes triste e mal humorado, sem ânimo para brincadeira alguma. Nem mesmo o Natal e a abertura dos presentes me deixaram contente. Mamãe até me levou ao médico, pois eu mal comia e ninguém entendia o porquê.
Sorte que Dinda adora passear comigo e veio um circo para a cidade. Ela me chamou para ir e resolvi ligar novamente, achando que talvez eu tivesse errado algum número. Catei a camiseta e apertei as teclas com extrema atenção:
- Alô. - a mesma senhora.
- Alô. É da casa de Tatiana? - pedi fazendo figa.
- Não, meu filho. Aqui não mora nenhuma Tatiana.
Daí ouvi ao fundo:
- Dá aqui o telefone, Bisa! Alô...
- Quem fala? - perguntei.
- Quer falar com quem?
- Com Tatiana.
- É ela mesma. Bisa anda meio doida.
Meu sorriso voltou. Eu disse quem era e fiz o convite:
- Tá bom. Vamos. - ela respondeu.
- Mais uma coisa. O que é bisa? - indaguei curioso.
- O que não... Quem!... - disse a marrenta. - Mãe da vó. É vó mais caduca, na verdade. - completou mais calma.
Dei tchau e mandei um beijo. E ela:
- Outro.
Aí virou goleada e a Lua ficou pequena.
III
Aconteceu certo sábado de sol em janeiro, Dia de Reis. No horário marcado, ela estava lá, de mão dada com a mãe. Do outro lado, uma velha de cabelo lilás, broche de madrepérola e roupas esquisitas. Tatiana vestia uma blusa branca e mini-saia azul. Tênis brancos e meias com flores amarelas bordadas. Margaridas com cores invertidas. Cordão também amarelo com flores, mas estas feitas com sementes. Os cachos desapareceram por conta da chapinha, o que nem um pouco diminuiu a beleza dela. Afinal, os olhos redondos sobressaíam mais ainda.
A mãe benzeu e a velha desejou-lhe boa viagem. Vai entender!? Tive que me esforçar para segurar o riso. Dinda conversou rapidamente com a mãe dela, enquanto eu agia:
- Tudo bem?
- Tudo.
- Sua bisa?
- É.
- Qual o nome dela?
- Paschoa. Com cê agá!
- Diferente.
- Estranho. Italiano! - disse ela, arregalando os faróis castanhos e espremendo os lábios.
Rimos.
Durante o espetáculo, Dinda deixou Tatiana sentar no meio. E do meu lado sentou um velho mais novo que a Paschoa e muito mais careca que ela. Seu nome era Elmo e ele nos encheu de doces. Do outro lado dele, seus netos falavam o tempo todo. Muito maneiro aquele senhor. Voraz em História como eu era, já sabia o significado da palavra elmo e posso dizer que o apelido caía muito bem.
Cada vez que eu encostava meu joelho na coxa de Tatiana, eu sentia um frio que descia pelas costas. Eu encabulava e olhava para ela sem jeito. Outras vezes eu apenas a espiava.
Ela riu timidamente dos palhaços. Olhou para mim na hora dos trapezistas. Encolheu as sobrancelhas na mágica que cortou em três uma mulher dentro de uma caixa. Tornou a sorrir com as acrobacias dos elefantes. Depois observou atentamente o globo da morte e segurou minha mão nos tigres.
Mas só no final, com os malabaristas, ela falou:
- Adoro os malabaristas.
Nada respondi.
Passou o bis e ela então agradeceu. Ganhei até um beijo no rosto. Ali eu percebi que poderia ser presidente.
Saímos dali cada um com uma maçã-do-amor embrulhada e seguimos até uma pastelaria. Lá a mãe dela nos encontraria.
Eu pedi de carne e ela de queijo. Repetimos ao contrário. No refresco, nós dois fomos de abacaxi. Dinda tentou puxar assunto:
- Gostaram?
Como estávamos comendo, ninguém falou de boca cheia. Eu balancei positivamente a cabeça enquanto preparava a próxima mordida e Tatiana somente sorriu para ela.
Quando Dinda foi pagar a conta, tomei a maior coragem:
- Vai continuar na escola?
- Vou.
Busquei novo assunto. História:
- Esperto aquele Galileu. Bem melhor que o Copérnico.
- Porque aprendeu com ele.
Meu queixo caiu. Não entendo bem o que é amor, mas também não entendi o que aconteceu comigo naquele instante. Aumentei minha coragem para continuar:
- Meu aniversário é no final do mês. Quer ir?
Ela aceitou e mostrou os dentes todos num sorriso imenso. Quase do tamanho do meu, que parecia a Lua vista através de um telescópio.
A mãe dela chegou, sem a Paschoa. Ganhei mais dois beijos, um em cada bochecha. Houve agradecimentos e despedidas. Quando já estavam distantes eu chamei:
- Tatiana!
- O que que foi? - ela perguntou de novo, porém desta vez com doçura, talvez pelas lambidas que dava na maçã-do-amor.
- Eu ligo pra passar o caminho até minha casa. Vai ser no último sábado do mês.
- Tá bom. - ela gritou sorrindo e partiu.
Fui embora imaginando que presidente era pouco. Achei que flutuar era possível.
IV
Quando mamãe perguntou o que eu queria de presente de aniversário, respondi:
- Três bolas de borracha. Daquelas de frescobol. Mas quero receber no dia certo, antes da festa. - pois teria três dias para me preparar.
Seria eu mesmo o malabarista do evento.
- Apenas três bolas de borracha?
- Sim, só isso. - confirmei sorrindo. - Mas tem de me dar antes!
- Tudo bem. - disse ela feliz da vida com o dinheiro que economizaria.
Claro que a minha idéia era que este presente me trouxesse outro: a admiração de Tatiana. Isso não estava à venda.
No domingo anterior, liguei para a casa dela. Tatiana não estava mas conversei com sua mãe. Daí passei o telefone para a minha, ela fez novamente o convite para a festa e explicou o caminho, tim-tim por tim-tim. Fiquei ali do lado o tempo todo, com a orelha grudada no fone.
No dia do meu aniversário, sem surpresa e depressa abri o pacote. Uma bola de cada cor: vermelha, azul e amarela. Dois segundos depois eu já estava treinando.
Primeiro com duas que é até fácil. Mas quando lidei com três, deu a maior confusão. Era bola para tudo quanto é lado.
Tentei durante dois dias e nada. Quebrei um porta-retrato e desfolhei uma planta. Aí mamãe me proibiu de brincar dentro de casa. Fui para o quintal.
Na sexta-feira, véspera da festa, já no final da tarde, eu estava cansadão quando passou em frente de casa um malabarista de verdade. Ele me olhou e percebeu minha aflição. Aproximou-se, retirou três clavas da mochila e falou:
- Mira!
Eu não entendi o que ele disse mas logo ele começou a jogar as clavas. Ele era um malabarista muito bom.
- Mira mis manos! - tornou a falar.
Fez mais um pouco e parou:
- Ahora usted! - apontou para mim e ficou esperando.
- Eu?
- Sí! Anda!
Eu joguei e foi o mesmo esparramo. Ele pulou o portão da minha casa e repetiu:
- Mira!
Prestei a maior atenção nos movimentos dele.
- Junto! - ele pediu.
Comecei a jogar as bolas. Ele largou as clavas, retirou três bolas da mochila e recomeçou. De repente, consegui fazer com três por alguns poucos segundos antes de espalhar tudo. Ele sorriu e disse:
- Nuevamente!
Catei as bolas e continuei tentando. Praticamos durante um bom tempo, até que ele parou:
- Pronto.Tienes que practicar siempre. Cada día harás mejor.
Guardou seu apetrechos e pulou novamente o portão. Acenou com a mão para se despedir.
Eu agradeci e perguntei seu nome:
- Gaston. - ele respondeu.
- De onde você é? - o curioso aqui.
- Argentina. - ele falou, com erre no lugar do gê.
E se foi.
Dali em diante eu só fiz praticar, melhorando pouco a pouco, pois ele me ensinou o movimento das mãos.
V
Despertei muito cedo naquele sábado. Peguei minhas bolas e ainda de pijama fui para o quintal. Não poderia perder tempo. Mesmo com os braços doídos, em nenhum momento pensei em descansar. Só parei quando mamãe me chamou para almoçar e aí conseguia equilibrar três bolas por quase um minuto.
Comemos e mamãe ordenou:
- Vá se vestir que vou levá-lo para cortar o cabelo.
Quero você bem bonito hoje.
Não gosto de cortar o cabelo. Prefiro mais comprido. Mas desta vez nem reclamei. Voltei para casa e fui direto para o banho. Vesti uma roupa nova e passei até perfume. Enquanto mamãe preparava as guloseimas, fui obrigado a ficar assistindo televisão para não suar ou me sujar.
Deu cinco horas e meus amigos começaram a chegar: Quinho, Keila, Lívia, Bodão, Robusto, Zabumba, Vina, Carlinha, Batata, Dani, Bob, Sardinha, Bárbara, Xaxá, Eugênia, Chico, Mônica, Márcia, Elis, Beiço e Mais Preto. Primos e vizinhos. Menos Tatiana.
Mamãe chamou para cantar parabéns e eu mal podia esconder minha tristeza. Ela perguntou para quem seria o primeiro pedaço de bolo:
- Pra mim mesmo! - e devorei.
Muitos brigadeiros e copos de refresco depois, fomos para o jardim. Nem toquei nas bolinhas. Brincamos de pique-esconde, lenço atrás e queimada.
Toda hora chegava um pai ou uma mãe e levava embora um dos meus colegas. Quando não sobrou mais ninguém, peguei meu pijama
e fui tomar banho sem mamãe mandar. Nem abri os presentes que ganhei. Saí do banheiro direto para a cama, mas antes agradeci a mamãe pela festa e desejei boa noite.
Mesmo muito cansado, demorei a pegar no sono:
- Por que Tatiana não veio? - eu me perguntava, choramingando.
VI
Acordei resmungão e de mal com a vida. Porém, mamãe salvou a humanidade do meu humor:
- Tatiana ligou ontem, tarde da noite, para dizer que viajou e não pôde vir. Mas disse que não esqueceu e pediu desculpas por não comparecer. Também disse que dá os parabéns na escola.
Mudei completamente. Que Lua nada, eu era Sol radiante, em dia de verão como aquele. Meia-hora e muito planejamento depois, eu me perguntei:
- Só em março?
E concluí:
- Tenho de armar algo antes.
Pensei e logo veio:
- Bloco pré-carnavalesco. Bem isso!
Dinda não recusaria pois ela ia em quase todos, ou melhor, em todos que ficava sabendo. Ela passava o verão inteiro nos eventos de samba. No inverno, ela sossegava. Vai entender!?
Telefonei:
- Dinda. - suspirei. - Tenho de providenciar um encontro. Um passeio. Eu pensei num bloco de rua. Pode me ajudar?
- Já sei. A garota do circo.
- Como adivinhou?
- Moleque, eu conheço seu jogo.
E antes que eu pudesse me defender, ela anunciou:
- Vou fazer mais, eu ligo pra ela.
Não achei correto. Ela tinha dado o número para mim e se outra pessoa ligasse ela poderia pensar que eu era um covarde. Desculpei-me:
- Deixa que eu ligo. A bisa dela é louca e esquece as coisas. E sua mãe viaja de uma hora pra outra. Se ela quiser ir, eu ligo de volta pra você. Obrigado, Dinda.
- Precisa agradecer não. Fala pra morena ir de rasteirinha e vestido porque vai suar. Beijo, moleque.
Desliguei eufórico e logo veio mamãe incomodando:
- Pro mercado! Vamos!
Mal pude conter, mas não contei nada para mamãe.
Outra coisa me intrigava:
- Como Dinda havia descoberto sobre Tatiana?
Fomos às compras. Bom ir, pois só não vou quando apronto e mereço castigo. E devo confessar que mamãe não sabe das minhas reais necessidades no dia-a-dia. Traz um monte de besteiras, como legumes, cereais e biscoitos salgados.
VII
Pois não é que choveu?! Tudo combinado e caiu a maior água. Logo cedo Dinda ligou:
- Não vai rolar.
- E se a gente fingisse que foi? Desistimos no caminho!
- Como assim?
- Vamos a outro lugar. Que seja coberto. - arrisquei.
- Tá, entendi. Boca de siri?!
- Bem isso!
- Mentir é feio, moleque! Mas eu vou segurar essa. Beijoca.
- Obrigado de novo, Dinda.
- Quando eu ficar gagá você me paga.
Rimos e desligamos.
Aí eu dei cabo no telefone. Isso mesmo. Desapareci com o aparelho. Assim Tatiana não tinha como desmarcar. Guardei no meu super-hiper-mega-esconderijo: a caixa de papelão onde mamãe ajuntava os manuais de instruções dos eletrodomésticos. Só eu mesmo para ousar mexer ali. Ou os bichos que comem papel.
O dia passou arrastado até que Dinda me apanhou e lá fomos ao encontro de Tatiana. Não lembro de permanecer tão limpo por tanto tempo quanto naquele dia, embora soubesse que a chuva estragaria tudo. Confesso que o cabelo curto ajudou a manter a ordem. Aliás, cabelo é uma coisa que incomoda.
Enfim, ela veio. Vestido rosa debaixo de jaqueta anil. Unhas também rosadas. Vinte botões. Bolsa, cordão, rasteirinha e brincos azuis. Maria-chiquinha. Sorrisão!
Ela saltitou até o carro do lado da mãe, sob a sombrinha.
Ganhei um abraço e um beijo no rosto. Fomos ambos sentados atrás, com as costas de um banco para cada um. O meu era sinistro pois havia a cabeleira da Dinda toda presa, ou melhor, amontoada para cima do encosto do banco.
A mãe de Tatiana indagou pela janela do passageiro:
- Vocês têm certeza?
- Absoluta. Eu distraio a dupla. - Dinda afirmou.
- Tá certo. - concordou a mãe da primeira-dama.
- Eu ligo quando estivermos voltando.
- Combinado. Vão em paz.
- Fique com a mesma.
Despediram-se.
Expirei aliviado, inspirei a água de colônia de Tatiana e aí inquietei. O que dizer? Dinda voltou a me socorrer:
- Vamos sambar na chuva! Tirem os sapatos. - e acelerou.
VIII
Direitinho! Já na segunda música Tatiana sambava feito doida e rodava para lá e para cá. Na terceira eu me ofereci para segurar sua jaqueta.
De pé no chão, sem cerimônia alguma. Nem de longe lembrava a marrenta da escola. Tatiana era um jardim repleto de rosas.
Eu só cantava:
- ´Brasil, nossas verdes matas, cachoeiras e cascatas, de colorido sutil.´
Chacoalhava os ombros, batucava na perna e admirava o bailar de Tatiana no máximo que eu podia. Meu lance era apenas cantarolar.
Dinda chegou com água mineral e perguntou se alguém queria comer. Nada. Ela só fazia dançar e isso para mim era o suficiente. Podia ficar horas a fio ali, rindo muito à toa. E foi o que aconteceu.
Quando afinal parou de chover, já estávamos com os dedos enrugados. Contudo ela continuava na mesma animação. Dentes à mostra. Dinda tentou acompanhar, cansou e desistiu. Ninguém podia com o pique de Tatiana.
Os músicos sentiram fome primeiro e começaram a se despedir. O bloco se desfez. Era quase noite. De uma hora para outra, veio uma nuvem negra anunciando tempestade e escureceu de vez. Relâmpago e trovão. Dinda nos levou até a entrada de uma galeria e eu ajudei Tatiana a recolocar sua jaqueta.
Abrigados, observamos a correria das pessoas, a chuva formando poças e o vento desfolhando árvores. Havia uma crosta imunda nos nossos pés e respingos pelas nossas pernas. Nem assim Tatiana deixou de ser bonita. Ela se aproximou e segurou minha mão. Estremeci. Depois do choque constatei que minha primeira-dama tinha
receio de temporais. Estufei o peito e estendi meu braço das costas ao ombro dela. Ofereci a outra mão. Ela aceitou e naquele instante me senti utilíssimo.
Aí falei uma das coisas mais inteligentes da minha vida:
- Não tenha medo. Vai dar tudo certo. Fique tranqüila. - e contraí os músculos.
Tatiana me sorriu com gratidão. Nunca tinha visto seus olhos tão arregalados.
Ali descobri que Dinda lia pensamentos, pois tinha encerrado meu discurso e não tinha idéia do que falar a seguir.
- Tatiana, você sabe das coisas. Samba muito bem. Onde aprendeu?
- Na escola de jongo do Mestre Darci, na Serrinha, em Madureira, com minhas primas. Eu adoro dançar.
- Percebe-se. - Dinda confirmou.
Um minuto depois, aprontou para mim:
- Tem de ensinar esse moleque. Que tal?
- Pode ser. - respondeu Tatiana.
- Quando? - não sei como, mas eu disse.
Ficou um enorme silêncio e daí caímos na gargalhada.
Eu, o rei do trovão, estava obrigado a dançar. Como?
Quando cheguei em casa, mamãe se encontravaabalada atrás do telefone. Aliás permanecera assim durante toda a tempestade. Eu precisava planejar algo. Nem malabarista, tampouco presidente, eu tinha de ser mágico naquela hora. E foi exatamente assim: no menor piscar de olhos dela, o telefone reapareceu.
IX
Eu passei as noites seguintes amedrontado com a idéia de Dinda. Sempre tive muita vergonha de dançar. Jamais me atrevi.
Na verdade, acabei me controlando ao imaginar o presidente na mesma situação, com geral filmando e fotografando. Se eu queria namorar aquela garota, havia de encontrar coragem com urgência. Ai, ai!
Porém, o pânico só tomou conta realmente quando Tatiana telefonou:
- Tem ensaio no Império Serrano e minha família vai. Quer ir com sua dinda?
- Vou ver com ela. Quando é?
- De sábado.
- Tá bom. Posso fazer uma pergunta?
- O que que foi? - aquilo era quase cacoete.
- Até a Paschoa vai?
- Óbvio que não. Ela só assiste televisão e conversa com plantas e passarinhos. Fala de carroças e de outras coisas antigas. Ela tem noventa anos e mamãe diz que ela já enferrujou.
- Que engraçado!
- Pois é. Como ela nunca lembra quem eu sou, sempre invento um nome diferente. E ela responde sempre a mesma coisa: ´Que moça grande, bonita, corada! Aposto que vai bem na escola!´ - ouvi sua voz imitando sua bisa.
Ela continuou:
- Logo depois ela me esquece. Pode?
Soltei uma gargalhada. Após me controlar, avisei que retornaria para ela em breve.
Pronto: desespero total. Pensei em inventar algo como perna quebrada, doença ou falecimento na família. Mas desisti de fugir pensando em Tatiana a sambar.
Convidei Dinda, sem saber ao certo o que seria melhor: sim ou não. Sentia um pouco de medo, admito. Tornei a imaginar o presidente e pela primeira vez eu vi que não estava preparado para o cargo. Se fosse flutuar, ao menos. Mas dançar eu não sabia.
Pior ou melhor, Dinda adorou o programa, topou na hora e resolveu chamar umas amigas.
Na sexta-feira mamãe perguntou o que eu tinha, pois não parava quieto e meu apetite simplesmente havia desaparecido. Respondi nada. Ela quis saber das bolinhas.
Desconversei. No final, fui colocado contra a parede:
- Qual é o problema, garoto?
- Nenhum.
- Anda. Desenrola.
- Tá, mamãe. Amanhã Tatiana vai me ensinar a sambar. Tentar, quero dizer, porque não sei se consigo aprender.
- Peraí.
Mamãe revirou aqueles velhos e mofados discos dela. Isso, daqueles que precisa virar para ouvir a outra metade. Coisa de museu. Mas por incrível que possa parecer, funcionou.
Li na capa: Dona Ivone Lara.
Mamãe estendeu sua mão direita e agarrou na minha esquerda. Em seguida pegou a esquerda dela, grudou na minha direita e fez eu abraçá-la pela cintura. Daí largou a minha e soltou a sua no meu ombro. Então disse:
- Dois prum lado, dois pro outro. É a chave de tudo. Com o tempo melhora. Tem de praticar.
Lembrei do Gaston e do quanto pratiquei em vão. Três bolinhas?! Tudo bem, o presidente também havia precisado de segundo turno. Senti-me desengonçado, mas flutuando e com vontade de morar na Lua.
Mamãe cantava e ensinava:
- ´Traz a pureza de um samba, sentido e marcado por mágoa de amor. Um samba que mexe o corpo da gente é o vento vadio embalando a flor...´. Presta atenção no passo! ´Sonho meu, sonho meu...´. Eu ninava você com essa música.
É... Estava passada a hora de eu virar vento para balançar minha flor. Haja coragem.
O ENSAIO
(Epílogo)
O carro da Dinda estava lotado. Fui espremido entre suas amigas. Lembrei da última vez que ali estive, da tempestade, da marrenta e da doce Tatiana, e da final de campeonato que me aguardava. Um calafrio veio e foi embora assim que imaginei o presidente. Recordei a aula de mamãe e fiquei quase tranqüilo.
O céu estava límpido e isso me dava uma certa solidão, por eu saber das influências dos trovões em Tatiana e ser este o único meio de confortar minha primeira-dama.
Eu nunca havia entrado numa quadra de escola de samba e devo dizer que gostei bastante. Geral sambando e cantando, com uma bateria muito alta. Parecia até que as paredes se mexiam. Acalmei-me julgando ser impossível encontrar alguém naquela multidão e isso me livraria do exame final.
Dinda e suas amigas se acomodaram e me deixaram de lado. Vez ou outra, talvez por remorso, uma delas me oferecia refrigerante ou perguntava se eu queria ir ao banheiro.
Bem depois Dinda se ligou:
- E Tatiana?
- Sei lá. Olha só quanta gente!
- Vamos procurar! – disse ela, afoita.
- Peraí. Daqui a pouco. Deixa eu ver isso tudo aqui. – falei, observador.
- Moleque atrevido! Só no miudinho...
E esfregou os dedos em minha cabeça, mania dela que eu detesto.
Demorou pouco para um dedo tocar minhas costas.
Tatiana de verde e branco. Covinhas torradas de verão. Caracóis castanhos reunidos em um rabo de cavalo que sacudia sobre tamancos de madeira. Minhas pernas ficaram bambas e meu rosto corou.
Pensar não deu. Nem falar. Tatiana catou minha mão e com um aceno frenético visou Dinda que íamos dançar. Esta, por sua vez, tratou de alertar todas as amigas do acontecimento. Lá foi o presidente, sem a ajuda da tempestade e constrangido como nunca.
Quando ela me abraçou e íamos começar, eu avisei:
- Dancei uma vez na vida. Com mamãe.
- Sossega e me acompanha. – ordenou a primeiradama.
Errei algumas vezes. Fui acertando mais. Até que vingou. Levei uns esculachos dela e alguns leves tapas nos quadris. Ela riu muito e isso, por si só, já me bastava.
Três músicas! Com os cachos dela comichando meu nariz. Com as mãos suando juntas. Com olhares risonhos. Com bochechas roçando. Nunca quis chorar de alegria antes. Claro que segurei.
Aí paramos. Fomos até a mãe dela e a carregamos até Dinda. Tudo esclarecido e voltamos para a pista. Não antes dos elogios. Haja paciência.
Sambei flutuante pela primeira vez. Se era para eu ser presidente, que fosse de uma escola de samba. Havia Lua. Logo duas. E gigantes. Andamos de mãos dadas nos intervalos, sempre com ela me puxando, e observamos a bateria. Gostei do agogô em especial.
Num certo momento, Tatiana me puxou para um canto e me deu um baita beijo. Nada destas coisas de criança. Um beijo à vera.
Não faço a mínima idéia de quanto tempo durou. Só sei que flutuei até a Lua, voei no avião do presidente, fiz malabarismo com os olhos fechados, sambei e senti o arrepio mais fantástico do mundo. Viver enfim valia a pena.
Tatiana parou, olhou para mim ainda abraçada e disparou sorrindo:
- O que que foi? – exatamente o que eu queria ouvir.
- Nada. – encarei a primeira-dama e busquei seus lábios de novo.
Outro beijo. E diferente.
Daí acabou e fomos aos familiares. Sentamos e eu me calei. Não sei o que houve. Eu desejava que todos os outros sumissem dali. Dinda me socorreu, definitivamente:
- Vamos?! Tá tarde!
- Vamos. – concordei sem saber ao certo o que eu queria naquela hora.
Chamei Tatiana para uma conversa. Um particular.
Deveria pedir para namorar com ela. Porém desta vez minha coragem falhou. Sei não o porquê, mas foi:
- Até mais, nos vemos na escola. – disse-lhe com a maior cara de idiota.
- Até. – sorriu-me Tatiana, com olhos mais brilhantes que qualquer estrela.
Ela beijou cada uma das minhas bochechas e me abraçou mais forte que das outras vezes. Quase chorei. Maior esforço para segurar as lágrimas. Tornei a imaginar o presidente e tudo bem.
Respirei fundo o cheiro de minha primeira-dama e parti devagar. Peito estufado. Longe ainda nos olhávamos entre as brechas da multidão.
Assim que entrei no carro, deixei de flutuar por conta das enxeridas:
- E aí, rolou? – logo Dinda, ao volante.
As demais cochichavam e filmavam.
- Maneiro. – desconversei, breve e reservado.
Meu riso era dentro. Também recorri ao presidente para me controlar e não revelar nada. A Lua morava em mim.
Só me incomodava o vacilo de não ter feito a pergunta sobre o namoro. Eu havia de esperar.
Cheguei em casa tagarelando e muito orgulhoso. O beijo coloquei na memória e no meio dos tais manuais. Segredo meu.
Mamãe só estranhou o número de vezes que perguntei a data de início das aulas.
***